Reinaldo Azevedo

Flávio lidera por 2,09 pontos. Extrema direita varre Senado e avança na Câmara. PL, aliados e centrão terão maioria esmagadora nos Estados

Reinaldo Azevedo

05/10/2026 09:33, atualizado 05/10/2026 09:51

"O Último Dia de Pompeia", de de Karl Bryullov (1799-1852), sobre a erupção do Vesúvio no qano 79

Vocês querem um pouco de paz, assim, na chamada coisa pública? Acho que não terão. Se Lula vencer a eleição — e é claro que pode triunfar —, encontrará o Congresso mais adverso de seus quatro mandatos. Se Flávio Bolsonaro se sagrar vitorioso, aí o grande risco está no delírio da vitória. Com um apoio que pode ser esmagador no Senado e com chance de uma maioria contundente na Câmara, pode ser tomado pelo frenesi do poder absoluto — justamente aquele que só encontra seu limite na lei. Mas Flávio já falou — e seu pai, o Jair, também — que o objetivo mesmo é atropelar o STF, além de controlar todas as instâncias do Estado, inclusive as agências reguladoras. Vencendo o candidato do PL, vamos finalmente conhecer as “mudanças” que a extrema direita quer fazer no Brasil e como os pobres vão encontrar a redenção.
O SEGUNDO TURNO ENTRE LULA E FLÁVIO
Vamos a algumas considerações sobre a disputa eleitoral deste domingo e os cenários possíveis. A extrema direita teve, sim, uma vitória acachapante. A coisa muda um pouco de figura se perder a eleição presidencial, o que obviamente é possível, embora Flávio Bolsonaro, do PL, esteja à frente. No primeiro turno, o presidente Lula, do PT, obteve 45,16% dos votos válidos, contra 47,03% do senador do PL. No dia 25 de outubro, ambos disputam o segundo turno. O resultado surpreendeu Lula e o PT, embora pesquisas tenham captado o movimento em favor do voto útil. Em alguns Estados, o desempenho do atual mandatário ficou bem abaixo do esperado. Qualquer que seja o resultado, a chance de uma crise das boas é imensa se faltar juízo. Os mercados estão animadinhos porque maximizam a importância do “equilíbrio das contas” — se vier — e tendem a ignorar o risco de uma confusão dos diabos com o Judiciário.
CAMPANHA PELO VOTO ÚTIL FUNCIONOU
É evidente que a campanha de Flávio em favor do voto útil funcionou. Todos os demais candidatos da direita tiveram um desempenho abaixo do que indicavam as pesquisas, ainda que dentro da margem de erro: Augusto Cury (Avante), 2,89%; Renan Santos (Missão), 2,24%; Ronaldo Caiado (PSD), 2,18%; e Romeu Zema (Novo), 0,27%. Esses dados, curiosamente, podem ser um alento para o petista, a ver. A pregação em favor do voto útil foi muito forte — já que o mote era “evitar a vitória de Lula”. Em tese, ao menos, estes que resistiram não migram em massa para o candidato do PL. Mas tudo depende da campanha. Vamos ver.
SENADO E IMPEACHMENT DE MINISTROS
A vitória mais contundente da extrema direita se deu no Senado. O PL elegeu 19 senadores e passará a contar com uma bancada de 28; o PP salta de 3 para 6; o extremista Novo, que hoje não tem parlamentar na Casa, passará a contar com 3; o União Brasil cresce de 2 para 5. Até aqui, estamos falando já de 42 senadores. Com os 6 do Republicanos, chega-se a 48. Juntando-se 2 do Podemos, atinge-se a marca de 50. O MDB passará a ter uma representação de 8, e certamente contam-se bolsonaristas entre eles. É certo que o PL tentará fazer a Presidência da Casa — e, nesse caso, o senador Rogério Marinho (RN) é um candidato, vamos dizer, natural. Ainda que Flávio perca, a agenda de vingança contra o Supremo vira item obrigatório da pauta dos reacionários. Se vão ou não levar a efeito, é o que se vai ver. Nota: o PSD, que tem uma agenda de contenção de extremismos sob a batuta de Gilberto Kassab, é o grande derrotado na Casa: cai dos atuais 14 senadores para 5 — elegeu apenas 2. O PT conseguiu eleger 6 e conserva os mesmos 9 que já tinha. O PSB elegeu 3, mas cai de 7 para 4.
A SITUAÇÃO DA CÂMARA
Na Câmara, a situação é um tantinho menos dramática para Hugo Motta (Republicanos-PB), também candidato a presidir a Casa de novo, mas muito longe de ser tarefa tranquila. Os progressistas perderam espaço: a Federação PT-PCdoB-PV caiu de 81 para 78 deputados; o PSB passou de 14 para 15, mas o PDT caiu de 18 para 12. O União Brasil, que até ensaia alguma moderação às vezes, perdeu 4: de 59 para 55; o PP avançou para 52, e o Republicanos, de Motta, foi de 41 para 43. O Novo, mais bolsonarista do que o bolsonarismo, que estava com 4 deputados, passa a ter 10. O bolsonarismo vai querer, evidentemente, controlar as duas Casas. Quando menos, num eventual acordo com Motta, o que hoje parece improvável, vai tentar lhe impor uma agenda reacionária.
O DISCURSO “MANSO” DE FLÁVIO
Depois da divulgação de resultados, Flávio não fez exatamente o discurso dos que esperam muito sangue. Não repetiu, por exemplo, a promessa de que vai subir a rampa em companhia do pai, Jair, que está em prisão domiciliar. Disse que o resultado é o prenúncio do que chamou de “fim da era PT” e fez um resumo bem perturbado sobre o que é o governo Lula. O Supremo não ficou de fora, mas se limitou a falar sobre as quatro indicações que há por fazer no próximo mandato. Na campanha, manifestou a intenção de se livrar de todos os magistrados indicados pelo PT — além, claro, de alvejar Alexandre de Moraes. Certamente espera deixar isso com o Senado. Reafirmou seu compromisso de encaminhar o fim da reeleição para presidente.
LULA SURPRESO COM O RESULTADO
Lula também discursou ontem. Admitiu que o desempenho ficou aquém de suas expectativas e brincou que o povo gosta que ele dispute o segundo turno. Criticou o que chamou de “biografia tenebrosa” do adversário, acusando ligação com as milícias e com o crime organizado. Pregou equilíbrio fiscal, mas disse que o ajuste não será feito para “prejudicar as pessoas mais pobres do país”. Dadas as mais de 33 milhões de abstenções, o presidente fez uma convocação para que as pessoas compareçam às urnas. E disse que “o jogo vai começar de verdade”.
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NUNCA HOUVE VIRADA PRESIDENCIAL
Já assistimos a muitas viradas eleitorais em Estados e cidades em que há segundo turno — isto é, quem larga atrás acaba vencendo —, mas isso nunca aconteceu numa disputa presidencial. Lula, de todo modo, é o homem dos ineditismos — ninguém antes se elegeu três vezes presidente da República. Se conseguir o quarto mandato, marcará dois ineditismos: além de chefiar o Executivo pela quarta vez, ultrapassar quem larga na frente. As pesquisas não tardarão. No sábado, quatro institutos divulgaram números de uma simulação da etapa final. Todas apontam empate técnico, e três delas com o petista numericamente à frente: Atlas/Bloomberg: 50,1% a 49,9%, com margem de erro de um ponto; CNT/MDA: 47,3% a 43,1%, com margem de 2,2 pontos; Datafolha: 47% a 46%, com dois de oscilação possível. A Quaest apontou Flávio com 44% e Lula com 42%, também com dois pontos a mais ou a menos.
DIREITA TAMBÉM LEVA MAIORIA DOS ESTADOS
A direita também ganhou de lavada nos governos dos Estados. Vinte deles elegeram ou reelegeram em primeiro turno o chefe dos Executivos estaduais. O PL, que tem apenas um mandatário hoje, já elegeu cinco: Sergio Moro (PR); Luciano Zucco (RS); Marcos Rogério (RO); Arthur Henrique (RR) e Jorginho Mello (SC). Entre os outros 15, há pelo menos outros cinco bolsonaristas, a começar por Tarcísio de Freitas (Republicanos), que teve uma vitória maiúscula em São Paulo. O PL ainda disputa o governo do Rio: Douglas Ruas (49,27%) enfrenta Eduardo Paes, do PSD, que ficou com 42,76%. No DF, Celina Leão, do PP (49,93%), entra como franca favorita contra Leandro Grass, do PT (34,47%). O PT é competitivo no Rio Grande do Norte com Carlos Eduardo Xavier (35,16%), que enfrenta Allyson Bezerra, do União (36,94%). Há apenas três governadores progressistas efetivamente eleitos: CE, PI e BA. Pode haver um quarto no Rio Grande do Norte. No Amazonas, Omar Aziz, do PSD, alinhado com Lula, entra como favorito.
CONCLUO POR ORA
Voltemos ao ponto: alguma chance de sossego? Depende. Se Lula vencer, parece certo que os bolsonaristas tentarão sabotar o governo e só a lei poderá lhes impor algum limite. Se Flávio chegar à Presidência, aí o objetivo já declarado pelo pai e pelo filho é tomar de assalto também a lei. Viveremos dias agitados e creio que não muito interessantes.
“O Último Dia de Pompeia”, de de Karl Bryullov (1799-1852), sobre a erupção do Vesúvio no ano 79


