Todos os anos, o mês de setembro é marcado por uma mobilização que ainda é pouco conhecida fora dos consultórios de ginecologia e oncologia: o Setembro em Flor. Criada pelo EVA – Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos, a campanha existe para lembrar a sociedade de algo simples, mas fundamental: os cânceres que afetam o colo do útero, os ovários, o endométrio, a vulva e a vagina estão entre os mais frequentes na população feminina — e também entre os que mais se beneficiam de prevenção e diagnóstico precoce.A relevância do tema ganhou um capítulo novo em 2026. Está em tramitação no Senado o Projeto de Lei 5.782/2023, que propõe transformar o Setembro em Flor em campanha oficial, instituída por lei federal. O texto foi aprovado pela Comissão de Direitos Humanos em maio deste ano e segue agora para votação no Plenário. Independentemente do resultado legislativo, a proposta ajuda a explicar por que o assunto voltou a ganhar espaço no noticiário de saúde.Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o triênio 2026-2028, o Brasil deve registrar cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano. Dentro desse total, os cânceres ginecológicos ocupam um espaço relevante: só o câncer do colo do útero deve responder por aproximadamente 19,3 mil novos casos anuais, com mais de 7 mil mortes por ano — um cenário que chama atenção por se tratar de uma das neoplasias mais evitáveis que existem, graças à vacina contra o HPV e ao exame preventivo.O câncer de ovário, por sua vez, tem uma particularidade que preocupa os especialistas: por apresentar sintomas pouco específicos (como distensão abdominal, desconforto pélvico e alterações do hábito intestinal ou urinário), ele é diagnosticado tardiamente em cerca de 75% dos casos no Brasil, segundo dados médicos recentes. Já o câncer de endométrio, mais comum após a menopausa, costuma se manifestar por sangramentos vaginais fora do padrão habitual, um sinal que nunca deve ser ignorado ou naturalizado.Os cânceres de vulva e de vagina, menos frequentes, também fazem parte do escopo da campanha. Coceira persistente, mudanças na cor da pele da região genital, feridas que não cicatrizam ou sangramentos anormais são sinais que justificam avaliação com um ginecologista.A boa notícia é que a ciência já indica caminhos consistentes de prevenção para boa parte desses tumores.A vacinação contra o HPV, oferecida gratuitamente pelo SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos (com possibilidade de dose de resgate até os 19 anos), é considerada altamente eficaz na prevenção da infecção pelos principais tipos do vírus associados ao câncer de colo do útero. Já o exame preventivo, o conhecido Papanicolau (ou o teste de DNA-HPV, cada vez mais utilizado), é recomendado para mulheres de 25 a 64 anos que já tiveram atividade sexual, com repetição a cada três anos após dois resultados normais consecutivos com intervalo anual. Depois dos 60 anos, se o histórico de exames sempre foi normal, a repetição periódica costuma deixar de ser necessária — uma decisão que, como sempre, deve ser conversada com o profissional que acompanha cada caso.Para os cânceres de ovário e de endométrio, que não contam com um exame de rastreamento populacional específico, a atenção aos sinais do próprio corpo e a manutenção de hábitos saudáveis seguem sendo as principais ferramentas de proteção disponíveis.É aqui que entra um ponto que costumo destacar bastante neste espaço: o corpo em movimento é parte ativa da prevenção, não apenas um coadjuvante.O próprio INCA reconhece que a atividade física regular está associada a menor risco de câncer de endométrio, entre outros tipos, por contribuir para o equilíbrio hormonal, o fortalecimento do sistema imunológico e a manutenção de um peso saudável. A recomendação gira em torno de 30 minutos diários de atividade de intensidade moderada — mas as evidências mostram que mesmo períodos mais curtos já trazem benefícios, e que caminhar, dançar, pedalar ou nadar contam tanto quanto uma rotina mais estruturada de exercícios.Para mulheres que já enfrentaram ou estão em tratamento de um câncer ginecológico, o movimento também tem um papel importante na recuperação física e emocional, na disposição do dia a dia e na qualidade de vida — sempre orientado por uma equipe multiprofissional que conheça a história de cada paciente.Vale reforçar que nenhum sintoma isolado significa, necessariamente, câncer — a maioria das alterações ginecológicas tem causas benignas e tratáveis. Ainda assim, alguns sinais merecem avaliação médica sem demora: sangramento vaginal fora do período menstrual ou após a menopausa, sangramento após a relação sexual, dor pélvica persistente, inchaço ou distensão abdominal que não passa, mudanças no hábito urinário ou intestinal sem explicação aparente, e qualquer lesão, coceira persistente ou ferida na região genital que não cicatriza.Procurar um ginecologista diante desses sinais não é motivo de alarme, mas um gesto de cuidado — o mesmo espírito que move a campanha Setembro em Flor.O objetivo de falar sobre cânceres ginecológicos não é gerar preocupação, mas ampliar a informação disponível para que cada mulher possa cuidar de si com mais consciência. Muitos desses tumores estão entre os mais preveníveis e, quando identificados precocemente, apresentam boas chances de tratamento bem-sucedido. Manter os exames em dia, ficar atenta aos sinais do corpo e incluir o movimento na rotina são atitudes simples que, juntas, fazem parte de um cuidado contínuo com a saúde da mulher — em setembro e em todos os outros meses do ano.Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento com profissionais de saúde. Cada caso deve ser avaliado individualmente.✅Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp










