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O rei Charles III começa nesta terça-feira, 27, uma viagem de sete dias pelo Caribe, onde visitará três países antes de participar da reunião dos líderes dos 56 países-membros do Commonwealth, associação voluntária formada por nações independentes, em sua maioria antigas colônias do Império Britânico.

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Charles já provou que consegue conduzir com habilidade missões diplomáticas delicadas. Durante uma visita de Estado aos Estados Unidos em abril, ele encantou o presidente americano, Donald Trump, ao mesmo tempo que contestou sutilmente a visão de mundo de um homem impopular entre a maioria dos britânicos.

Nesta semana, o monarca enfrenta um desafio talvez ainda mais complexo: como manter unido o Commonwealth, formado pelos remanescentes de um império que seus antepassados governaram, em meio a pressões para que peça desculpas pelo colonialismo e pague reparações aos povos que, além de terem sido súditos da Coroa, foram submetidos aos horrores da escravidão?

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O rei Charles III faz uma viagem de sete dias pelo Caribe. Foto: Isabel Infantes/Pool/AFP

O Commonwealth é um grupo voluntário, em grande parte simbólico, composto principalmente por antigas colônias britânicas. Algumas delas ainda reconhecem Charles como chefe de Estado em caráter cerimonial, mas muitas se tornaram repúblicas. Durante a reunião dos líderes, ele enfrentará novos apelos, inclusive da secretária-geral do Commonwealth, Shirley Ayorkor Botchwey, por uma discussão franca sobre questões delicadas.

“Estamos pedindo um diálogo baseado na decência”, disse na semana passada o presidente da Comissão de Reparações da Comunidade do Caribe (Caricom), Hilary Beckles, durante uma entrevista coletiva antes da visita do rei.

“Faço um apelo a Charles Windsor, um pai, um avô”, disse Beckles, que também é vice-reitor da Universidade das Índias Ocidentais. “Ele pode ver o enriquecimento que a escravidão proporcionou à sua família. Pode ver que a riqueza que está transmitindo a seus filhos e netos surgiu inteiramente de quantias significativas geradas por esse processo de transformação dos africanos em propriedade.”

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O historiador Ed Owens, que escreve sobre a monarquia britânica, afirmou que a visita do rei ao Caribe é, por sua própria natureza, delicada, devido ao legado do colonialismo e da exploração na região. Cerca de três milhões de africanos escravizados foram transportados em navios britânicos pelo Atlântico nos séculos 18 e 19 para trabalhar em plantações coloniais. Tentativas de rebelião foram brutalmente reprimidas.
“A dominação britânica e o poder branco sobre esses povos de cor” nos séculos passados ainda pairam sobre a monarquia, disse Owens. “A branquitude da instituição é o problema. Ela continua sendo um símbolo da supremacia branca britânica.”
Em comunicado, o Palácio de Buckingham afirmou que Charles não evitaria o tema “dos dias mais sombrios do nosso passado”, mas não pediria desculpas. Segundo o palácio, seu papel constitucional o impede de se desviar da política oficial do governo britânico. O comunicado também disse que a decisão sobre eventuais reparações cabe ao governo britânico.
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Para Charles, que, quando era príncipe, afirmou que a “atrocidade abominável da escravidão” era algo que “mancha para sempre nossa história”, a visita às Bahamas, à Guiana e a Antígua e Barbuda representa mais um teste de sua capacidade de brilhar no cenário mundial.
Durante décadas, sua mãe, a rainha Elizabeth II, foi o rosto do declínio do Império Britânico, que chegou ao fim durante seu reinado, e, posteriormente, do Commonwealth. Após sua coroação, em 2023, aos 73 anos, Charles passou a ocupar um papel de maior destaque no cenário internacional, para além dos escândalos que assolaram a família real. Ele se tornou uma espécie de diplomata global, inclusive usando sua posição para manifestar apoio à Ucrânia e ao Canadá.
Até agora, ele surpreendeu alguns observadores da realeza.
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“Ele provou ser um monarca constitucional muito eficaz”, disse Philip Murphy, diretor de história e política do Instituto de Pesquisa Histórica da Universidade de Londres.
“Ele consegue fazer um discurso muito bem”, acrescentou Murphy, que também é ex-diretor do Instituto de Estudos do Commonwealth. “E consegue apresentá-lo com um grau de convicção pessoal e humor que sua mãe, sabe, definitivamente não tinha.”
O rei demonstrou ambas as características durante sua visita aos EUA neste ano. Em discurso no Congresso, provocou risadas entre democratas e republicanos com uma frase sobre as semelhanças entre os EUA e o Reino Unido. “Temos tudo em comum”, disse ele, “exceto, é claro, o idioma”.
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Durante o jantar de Estado na Casa Branca, ele massageou o ego de Trump ao presenteá-lo com um sino de bronze de um submarino britânico da época da Segunda Guerra Mundial, gravado com o nome da embarcação: H.M.S. Trump. O rei também alfinetou o presidente por suas “reformas na Ala Leste”, dizendo lamentar a “pequena tentativa de nossos próprios antepassados de fazer uma remodelação imobiliária na Casa Branca”, quando os britânicos incendiaram o edifício, em 1814.
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“O que ele fez ali, com muita habilidade, foi revitalizar os laços entre britânicos e americanos, contornando cuidadosamente um presidente muito difícil”, disse Owens. “Conquistando-o pelo charme, mas também o desafiando.”
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Visita de William e Kate rendeu desastre de relações públicas
Momentos de humor podem ser mais difíceis de encontrar na semana que vem, enquanto Charles e a rainha Camilla tentam evitar o tipo de desastre de relações públicas que atingiu o príncipe William e a princesa de Gales, Kate Middleton, no Caribe, alguns anos atrás.
A visita de uma semana a Belize, à Jamaica e às Bahamas, em 2022, deveria ser uma celebração do jubileu da rainha Elizabeth. Em vez disso, William e Kate ouviram pedidos de reparações, planos para transformar países em repúblicas e protestos relacionados a uma disputa por terras. Em um momento que ficou marcado, os dois foram fotografados cumprimentando crianças jamaicanas através de uma cerca de arame.
Essas são as imagens que o palácio espera evitar durante a visita de Charles e Camilla. A programação incluirá passagens por eventos esportivos, instituições de ensino e várias apresentações de projetos ambientais, há muito tempo uma prioridade para o rei.
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Na semana passada, a secretária-geral do Commonwealth afirmou que “chegou a hora” de discutir se o Reino Unido deveria pagar reparações aos descendentes dos escravizados pelos britânicos. Shirley acrescentou que um pedido de desculpas do rei “não faria mal algum”.
“Não acredito que possamos fugir dessa questão”, disse Shirley à emissora Sky News. “Mas é importante determinar que forma as reparações devem assumir, e isso é algo que acabará surgindo à medida que os países se sentarem à mesa para discutir - por mais difícil que seja o assunto, acredito que os países chegarão a algumas conclusões.”
O embaixador de Barbados na Caricom, David Comissiong, afirmou durante uma entrevista coletiva que “ao enfrentar os efeitos negativos desse crime monumental que ainda persistem, inauguraremos não apenas uma era de justiça reparatória, mas aquilo que agora estamos chamando de novo iluminismo”.
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Commonwealth
Ben Judah, que atuou como um dos principais assessores de David Lammy quando ele era ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, no ano passado, afirmou na semana passada que a organização precisava ser reestruturada.
“É hora de admitir que o Commonwealth não apenas deixou de cumprir seu propósito, como também age contra sua premissa de convivência harmoniosa no período pós-imperial”, escreveu Judah em uma publicação nas redes sociais. “Isso acontece porque ele se tornou pouco mais do que uma cúpula bienal com baixa participação, cujo único propósito parece ser permitir que os países caribenhos pressionem o Reino Unido por reparações. Isso só piora essas relações.”
Dos 56 países que integram o Commonwealth, apenas 14, além do Reino Unido, mantêm Charles como chefe de Estado, em caráter cerimonial. Entre eles estão Austrália, Nova Zelândia e Canadá. Os demais são repúblicas.
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Em 2022, o primeiro-ministro de Antígua e Barbuda, Gaston Browne, afirmou que o país realizaria um referendo sobre a saída do reino. A votação ainda não ocorreu.
Caberá a Charles defender a permanência no reino e, de forma mais ampla, o futuro do Commonwealth como instituição, mais de sete décadas após sua criação.
Este texto foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.
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