Os direitos da comunidade LGBTQIAPN+ na Alemanha estão entre os mais avançados do mundo, tendo evoluído significativamente ao longo das últimas décadas. Durante a década de 1920 e o início dos anos 1930, pessoas lésbicas e gays em Berlim eram, em geral, toleradas pela sociedade, e muitos bares e clubes voltados especificamente para homens gays foram abertos. Embora a atividade sexual entre pessoas do mesmo sexo masculino já tivesse sido criminalizada pelo Parágrafo 175 no Império Alemão em 1871, a Alemanha Nazista ampliou essas leis durante a Segunda Guerra Mundial, o que resultou na perseguição e morte de milhares de cidadãos homossexuais. A atividade sexual entre homens foi descriminalizada tanto na Alemanha Oriental quanto na Alemanha Ocidental em 1968 e 1969, respectivamente. O casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal desde 1o de outubro de 2017, após o Bundestag (Parlamento alemão) aprovar uma legislação que concedeu aos casais do mesmo sexo plenos direitos matrimoniais e de adoção em 30 de junho de 2017. Antes disso, uniões civis estavam disponíveis para casais do mesmo sexo, tendo sido legalizadas pela Lei de Parceria Civil em 2001. Essas parcerias ofereciam a maioria, mas não todos os mesmos direitos do casamento, e deixaram de existir após a introdução do casamento igualitário. A adoção de enteados por casais do mesmo sexo tornou-se legal em 2005 e foi ampliada em 2013 para permitir que uma pessoa em um relacionamento homoafetivo adotasse uma criança já adotada por seu parceiro. As proteções contra discriminação com base na orientação sexual e identidade de gênero variam dentro da Alemanha, mas a discriminação no emprego e na oferta de bens e serviços é proibida em todo o país por meio da Lei Geral de Tratamento Igualitário (Allgemeines Gleichbehandlungsgesetz), de 18 de agosto de 2006. Pessoas transgênero têm permissão para alterar seu gênero legal desde 1980. A partir de 1o de novembro de 2024, indivíduos com mais de 18 anos podem mudar seu gênero por autodeterminação. Inicialmente, a lei exigia cirurgia de redesignação genital para a alteração de documentos oficiais, mas isso foi posteriormente declarado inconstitucional. Em maio de 2020, a Alemanha tornou-se o quinto país a proibir a terapia de conversão sexual para menores de 18 anos, lei que se aplica tanto aos profissionais que a oferecem quanto aos pais que submetem os filhos ao processo de forma coercitiva. Apesar de o maior partido político ser socialmente conservador em relação a questões LGBTs (CDU/CSU), a Alemanha é frequentemente considerada um dos países mais amigáveis para pessoas LGBTs no mundo. Pesquisas recentes indicam que uma grande maioria dos alemães apoia o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Outra pesquisa, realizada pelo Pew Research Center em 2013, indicou que 87% dos alemães acreditavam que a homossexualidade deveria ser aceita pela sociedade, sendo esse o segundo maior índice entre 39 países pesquisados, atrás apenas da Espanha (88%). Berlim é frequentemente citada como uma das cidades mais acolhedoras para pessoas LGBTs no mundo. O ex-prefeito de Berlim, Klaus Wowereit, é um dos homens gays assumidos mais conhecidos da Alemanha, ao lado do ex-prefeito de Hamburgo, Ole von Beust, do ex-ministro federal da Saúde, Jens Spahn, do ex-ministro das Relações Exteriores e vice-chanceler, Guido Westerwelle, da ex-ministra do Meio Ambiente, Barbara Hendricks, dos comediantes Hape Kerkeling e Hella von Sinnen e da jornalista política Anne Will. Fundada em 1981, a Akademie Waldschlösschen, um centro de educação para adultos perto de Gotinga, tornou-se um importante ponto de encontro nacional para professores, advogados, membros do clero, pais gays e grupos estudantis LGBTQIA+ em universidades alemãs. Outros ativistas importantes dos direitos LGBTQIA+ incluem Rosa von Praunheim, cujo filme Não É o Homossexual Que É Perverso, Mas a Situação Em Que Ele Vive (1971) impulsionou o movimento moderno de libertação gay na Alemanha.

História das leis relativas à atividade sexual entre homossexuais Veja também: Parágrafo 175

A homossexualidade era punível com a morte no Sacro Império Romano-Germânico de 1532 até sua dissolução em 1806 e, na Prússia de 1620 a 1794. A influência do Código Napoleônico no início do século XIX estimulou descriminalizações em grande parte da Alemanha fora da Prússia. Mesmo antes da fundação do Império Alemão em 1871, já havia campanhas defendendo a descriminalização das relações sexuais entre homens em vários estados alemães.

No final do século XIX e início do século XX, a natureza da sexualidade humana tornou-se um campo central de investigação e debate científico, com a Alemanha ocupando posição de vanguarda nesse processo. O país estava no epicentro dos debates em torno do Parágrafo 175 que, com a formação do Império Alemão em 1871, compunha parte do Código Penal, que criminalizava os atos homossexuais nos seguintes termos:Atos sexuais não naturais (widernäturliche Unzucht) cometidos entre pessoas do sexo masculino, ou por humanos com animais, são puníveis com prisão; a perda dos direitos civis também pode ser sentenciada. (tradução própria)

Entre os mais proeminentes defensores dos direitos homossexuais desta época destacou-se o médico e pesquisador Magnus Hirschfeld, fundador do Institut für Sexualwissenschaft, que contestou a concepção então dominante de que a atração pelo mesmo sexo constituía uma perversão patológica. Hirschfeld sustentava que tal orientação era inata (angeboren) e, por isso, não deveria ser passível de punição legal. Com base nesse princípio, adotou o termo "homossexualidade" por considerá-lo mais adequado à sua argumentação e, em 1897, fundou o Comitê Científico Humanitário (Wissenschaftlich-humanitäres Komitee), pelo qual liderou uma campanha pela reforma do Parágrafo 175. Sua atuação ganhou especial relevância na década de 1920, durante a República de Weimar.

Durante a República de Weimar, as comunidades gays alemãs cresceram e se desenvolveram de forma inédita, com homens vivendo abertamente, frequentando bares como o famoso Eldorado em Berlim e se organizando em "ligas da amizade". Periódicos como Die Freundschaft e Der Eigene contribuíram para o fortalecimento dessas redes, educando leitores sobre sexualidade e fomentando o senso de comunidade. Esse florescimento era mais evidente nas grandes cidades, especialmente em Berlim, enquanto cidades menores e áreas rurais tendiam a ser menos receptivas. Apesar dessa primeiro movimento de campanha dos homossexuais, não houve sucesso pela revogação da lei tanto sob o Império Alemão quanto na República de Weimar.

Sob o nazismo, as condenações pelo Parágrafo 175 multiplicaram-se exponencialmente. Em 1934, foram registradas 948 condenações — número comparável às taxas do período da República de Weimar, ainda que no limite alto. Em 1936, esse número saltou para 5.320, chegando a aproximadamente 8.500 em 1938, um aumento de cerca de dez vezes em relação ao período anterior. Durante todo o período nazista, estima-se que foram presos cerca de 100 mil homens gays. As penas eram severas, e entre 5.000 e 15.000 suspeitos foram enviados para campos de concentração, onde a maioria deles morreu. Em 1938, esses grupos já eram identificados com vários distintivos coloridos usados nos uniformes do campo. Muitos homens presos por supostamente violar o Parágrafo 175 tiveram que usar um triângulo rosa. Esse distintivo os identificava como "homossexuais" (homosexuell) segundo o sistema de classificação de prisioneiros. Após a guerra, os Aliados forçaram os alemães a revogar estatutos e leis nazistas. O Parágrafo 175, considerado o "parágrafo gay", entretanto, permaneceu em vigor por considerá-lo anterior à era nazista. A Alemanha Oriental adotou a redação mais restrita de 1871, mas parou de aplicá-la em 1957 e a aboliu completamente em 1968. Já a Alemanha Ocidental manteve a versão nazista de 1935, aplicando-a vigorosamente entre 1949 e 1969, o que resultou em cerca de 100.000 homens presos, dos quais aproximadamente 59.000 foram condenados. Em 1969, a Alemanha Ocidental reduziu a aplicação do estatuto, e o Parágrafo 175 foi definitivamente removido do código penal alemão em 1994, após a reunificação do país. Os nazistas classificavam os prisioneiros em campos de concentração em grupos de acordo com o motivo de sua prisão. Em 1938, esses grupos já eram identificados com vários distintivos coloridos usados nos uniformes do campo. Muitos homens presos por supostamente violar o Parágrafo 175 tiveram que usar um triângulo rosa. Esse distintivo os identificava como "homossexuais" (homosexuell) segundo o sistema de classificação de prisioneiros. Em 1968, o Parágrafo 151 criminalizava não somente as relações homossexuais entre homens adultos mas também a menores de 18 anos, estabelecendo uma idade de consentimento desigual em comparação com a dos heterossexuais, que era 14 anos para ambos os sexos. Em 1987, entretanto, a Suprema Corte da Alemã Oriental derrubou a disposição, argumentando que uma idade de consentimento diferenciada excluía homossexuais da sociedade e dos direitos civis a eles garantidos. Desse modo, em julho de 1989, a idade de consentimento foi uniformizada em 14 anos para todas as relações sexuais, primeiro na Alemanha Oriental e depois na Alemanha Unificada em 1994.

Alemanha Oriental (1949–1990) A Alemanha Oriental herdou o Parágrafo 175. O ativista comunista gay Rudolf Klimmer, inspirando-se em Magnus Hirschfeld e em seu Comitê Científico-Humanitário, fez campanha em 1954 para que a lei fosse revogada, mas não teve sucesso. No entanto, seu trabalho impediu novas condenações por homossexualidade após 1957. Nos cinco anos seguintes à Revolta de 1953 na Alemanha Oriental, o governo instituiu um programa de “reforma moral” para construir uma base sólida para a nova república socialista, na qual a masculinidade e a família tradicional eram valorizadas. Enquanto isso, a homossexualidade — vista como contrária aos “costumes saudáveis do povo trabalhador” — continuou a ser perseguida sob o Parágrafo 175. A atividade entre pessoas do mesmo sexo era “alternativamente vista como um resquício da decadência burguesa, um sinal de fraqueza moral e uma ameaça à saúde social e política da nação”. Na Alemanha Oriental, o Parágrafo 175 deixou de ser aplicado a partir de 1957, mas permaneceu formalmente em vigor até 1968. Segundo a historiadora Heidi Minning, as tentativas de ativistas lésbicas e gays de estabelecerem uma comunidade visível foram “frustradas a cada passo” pelo governo da Alemanha Oriental e pelo Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED) em que a polícia foi usada em diversas ocasiões para dissolver ou impedir eventos públicos gays e lésbicos. A censura centralizada também impediu a representação da homossexualidade na mídia impressa e eletrônica, bem como a importação desse tipo de material. A Igreja Protestante ofereceu mais apoio do que o Estado, permitindo espaços para reuniões e facilidades de impressão. Eduard Stapel foi uma figura importante na criação de encontros em espaços da igreja protestante, especialmente em Leipzig. Em uma entrevista de 1994, ele destacou a importância dessas reuniões como alguns dos primeiros espaços de encontro para a comunidade gay na Alemanha Oriental, considerando particularmente relevantes os encontros iniciados em 1982. Em 11 de agosto de 1987, o Supremo Tribunal da Alemanha Oriental afirmou que a homossexualidade, assim como a heterossexualidade, representa uma variante do comportamento sexual. Pessoas homossexuais, portanto, não estão fora da sociedade socialista, e seus direitos civis são garantidos exatamente como aos demais cidadãos. Em 1988, o German Hygiene Museum (em alemão: Deutsches Hygiene-Museum), em Dresden, encomendou ao estúdio estatal DEFA (Deutsche Film-Aktiengesellschaft) a produção do documentário Die andere Liebe (em português: O Outro Amor). Foi o primeiro filme da DEFA sobre homossexualidade, com o objetivo de transmitir a aceitação oficial do Estado. Em 1989, o museu também encomendou outro documentário, Liebe ohne Angst (em português: Amor Sem Medo), sobre prevenção do HIV/AIDS, enfatizando que a AIDS não era uma “doença gay”. Ainda em 1989, a DEFA produziu o filme Coming Out, dirigido por Heiner Carow, que conta a história de um homem da Alemanha Oriental aceitando sua homossexualidade. Grande parte do filme foi rodada em bares gays de Berlim Oriental. Foi o único longa-metragem da Alemanha Oriental sobre desejo entre pessoas do mesmo sexo e recebeu diversos prêmios, incluindo o Urso de Prata e Teddy Award no Festival Internacional de Cinema de Berlim. Jürgen Lemke é considerado um dos ativistas mais proeminentes dos direitos gays na Alemanha Oriental e publicou em 1991 o livro Gay Voices from East Germany. Segundo Lemke, a comunidade gay era muito mais unida na Alemanha Oriental do que na Alemanha Ocidental.

Alemanha Ocidental (1949–1990)

A República Federal da Alemanha herdou o Parágrafo 175, que permaneceu em vigor até 1969. Diferentemente da Alemanha Oriental, a influência religiosa na Alemanha Ocidental era expressiva, com protestantes fundamentalistas e a Igreja Católica Romana opondo-se firmemente a qualquer legislação voltada aos direitos da comunidade LGBT. Nesse contexto, os Julgamentos de Frankfurt contra homossexuais, ocorridos entre 1950 e 1951, constituíram um capítulo significativo da perseguição a homossexuais na nova república, revelando uma continuidade com as práticas repressivas da era nazista sob a administração do primeiro chanceler da Alemanha Ocidental, Konrad Adenauer, que governou de 1949 a 1963. Segundo o escritor alemão Horst Riethausen, a polícia de Frankfurt iniciou em 1950 uma ofensiva contra a chamada "prostituição gay", alegando a proteção de menores como justificativa. A operação desencadeou uma ampla onda de prisões, resultando em aproximadamente 350 investigações, cerca de 150 detenções e ao menos 75 indiciamentos. Os julgamentos foram conduzidos principalmente pelo Ministério Público de Frankfurt, com a colaboração determinante do profissional do sexo Otto Blankenstein, que atuou como testemunha-chave da acusação. Blankenstein percorreu a cidade acompanhado de agentes policiais, indicando os endereços residenciais e comerciais de seus supostos clientes, que eram subsequentemente abordados pela polícia nas primeiras horas da manhã. Segundo o relato de Riethausen, mesmo nos casos em que as acusações eram infundadas, as consequências para os réus mostravam-se devastadoras e irreversíveis. Os julgamentos resultaram em pelo menos seis suicídios entre os acusados, incluindo o caso de um casal que tirou a própria vida por meio de intoxicação por gás iluminador e o de um jovem que se atirou da Torre Goethe. Em meio a sentimentos sociais conservadores predominantes, o partido União Democrata Cristã (CDU) da Alemanha, que exercia considerável influência política na Alemanha Ocidental do pós-guerra, geralmente ignorava ou se opunha ativamente às questões de direitos gays. Por outro lado, seus frequentes parceiros de coalizão, o Partido Democrático Livre (FDP) muitas vezes defendiam com mais força as liberdades civis. No entanto, como um partido menor, o FDP frequentemente evitava confrontar as alas mais conservadoras da CDU. Durante a Guerra Fria, o apoio aos direitos LGBT na Alemanha ficava, em geral, restrito ao FDP e ao Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) e, posteriormente, nos anos 1980, ao Partido Verde Alemão. Em nível nacional, avanços nos direitos gays só começaram a ocorrer no final da Guerra Fria e com o sucesso eleitoral do SPD, a exemplo da alteração da legislação, em 1990, para que a homossexualidade e a bissexualidade deixassem de ser motivos de discriminação nas Forças Armadas Alemã. O primeiro beijo gay na televisão alemã foi exibido no documentário de Rosa von Praunheim, Nicht der Homosexuelle ist pervers, sondern die Situation, in der er lebt em 1971. Esse filme marca o início do moderno movimento de libertação gay na Alemanha. Em 1986, a popular série de televisão Lindenstraße apresentou o primeiro beijo gay em uma série de TV alemã. A partir de então, muitos outros programas seguiram esse exemplo. A criação de emissoras privadas de televisão, em 1984, levou a uma maior presença da comunidade LGBT na mídia até o final da década. A emissora RTL, em particular, era bastante receptiva e várias celebridades da TV já haviam se assumido publicamente até então.

Anulação de condenações Em 2002, o governo da Alemanha decidiu anular todas as condenações por homossexualidade feitas durante o período da Alemanha Nazista. Em maio de 2016, o ministro da Justiça Heiko Maas anunciou que homens gays e bissexuais condenados por relações entre pessoas do mesmo sexo após a Segunda Guerra Mundial teriam suas condenações anuladas. Ele declarouː

Em outubro de 2016, o governo alemão anunciou a apresentação de um projeto de lei para perdoar cerca de 50.000 homens que sofreram perseguições devido à sua orientação sexual. Em 22 de março de 2017, o gabinete alemão aprovou oficialmente o projeto. A proposta também previa uma indenização de 3.000 euros por cada condenação, além de 1.500 euros por cada ano de prisão. Em 22 de junho de 2017, o Bundestag aprovou por unanimidade a lei para implementar a reabilitação de homens gays e bissexuais. O projeto seguiu então para o Bundesrat para aprovação final e foi sancionado pelo presidente alemão Frank-Walter Steinmeier em 17 de julho de 2017.

Programa de Indenização Em setembro de 2021, a Alemanha implementou um programa de indenização destinado a centenas — e possivelmente milhares — de vítimas LGBTs da legislação que criminalizava atos homossexuais. Tal normativa, mantida em sua versão da era nazista, permaneceu em vigor na Alemanha Ocidental até o ano de 1969.

Reconhecimento de uniões entre pessoas do mesmo sexo Veja também: Casamento entre pessoas do mesmo sexo na Alemanha Casais do mesmo sexo são reconhecidos legalmente na Alemanha desde 2001. Naquele ano, foram instituídas as uniões civis (eingetragene Lebenspartnerschaft), concedendo aos casais direitos e deveres em áreas como herança, pensão alimentícia, seguro de saúde, imigração, visitas hospitalares e prisionais, além de mudança de nome. Posteriormente, o Tribunal Constitucional decidiu repetidamente a favor de casais do mesmo sexo nessas parcerias, exigindo que o Bundestag realizasse mudanças graduais na legislação. Em um caso, o Tribunal Europeu de Justiça determinou que negar pensão de viúvo(a) ao parceiro(a) do mesmo sexo de uma pessoa falecida constitui discriminação direta, caso a parceria seja comparável ao casamento. Embora a maioria dos partidos políticos no Bundestag apoiasse a legalização do casamento igualitário, tentativas de aprovar a medida foram repetidamente bloqueadas pelos partidos conservadores CDU/CSU, o maior grupo parlamentar e força dominante nas coalizões de governo desde 2005. Isso mudou no último dia de sessão antes do recesso de verão de 2017, quando o Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) apresentou um projeto de lei para legalizar o casamento e a adoção por casais do mesmo sexo, que já havia sido aprovado pelo Bundesrat em setembro de 2015. A chanceler Angela Merkel flexibilizou sua posição ao permitir que membros da CDU/CSU votassem de acordo com sua consciência pessoal e não pelo partido, o que possibilitou que membros moderados votassem a favor. Em 30 de junho de 2017, o SPD, o partido A Esquerda, os Os Verdes e 75 membros da CDU/CSU formaram maioria no Parlamento alemão e aprovaram o projeto por 393 votos a 226. A lei entrou em vigor em 1o de outubro de 2017.

Os primeiros casamentos entre pessoas do mesmo sexo na Alemanha foram celebrados nessa mesma data. O casal de Berlim, Karl Kreile e Bodo Mende, juntos há 38 anos, foi o primeiro a oficializar sua união sob a nova lei, em uma cerimônia na prefeitura de Schöneberg. Em 2020, a União Democrata Cristã publicou um vídeo político apoiando o casamento e as famílias formadas por pessoas do mesmo sexo. Em 2023, a União Social Cristã da Baviera adotou uma plataforma partidária favorável ao casamento igualitário. Ainda em 2023, o partido extrema-direita alemão, Alternativa para Alemanha (AfD) permaneceu como o maior partido contrário ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, sendo liderado por Alice Weidel, que é lésbica. Alguns grupos e organizações religiosas na Alemanha realizam bênçãos formais para casamentos igualitários — por exemplo, igrejas da Igreja Evangélica na Alemanha — enquanto outros não. Em março de 2023, foi noticiado que, a partir de 2026, na região de Frankfurt, a Igreja Católica passará a realizar bênçãos para casais do mesmo sexo, contrariando as diretrizes do Vaticano.Após o processo sinodal, algumas dioceses católicas alemãs começaram a realizar cerimônias de bênção para casais do mesmo sexo em abril de 2023, como a Diocese de Osnabrück e a Diocese de Essen.Em abril de 2025, a conferência dos bispos católicos da Alemanha publicou um manual para cerimônias de bênção de uniões entre pessoas do mesmo sexo.

Adoção e parentalidade

Em 2004, a Lei de Parceria Civil — originalmente promulgada em 2001 — foi alterada, entrando em vigor em 1o de janeiro de 2005, com objetivo de conceder a casais igualitários direitos limitados de adoção, restritos à adoção de enteado(a) (stepchild adoption) e reformar procedimentos anteriormente burocráticos relacionados à dissolução da união, especialmente no que diz respeito à divisão de bens e pensão alimentícia.

Em 2013, o Tribunal Constitucional Federal decidiu que, caso um dos parceiros em uma relação homoafetiva tivesse adotado uma criança, o outro parceiro passaria a ter o direito de também se tornar pai ou mãe adotivo(a) dessa criança — instituto jurídico denominado "adoção sucessiva". A lei do casamento igualitário, aprovada em junho de 2017, concedeu direitos plenos de adoção a casais do mesmo sexo.Em 10 de outubro de 2017, um tribunal no distrito de Kreuzberg, em Berlim, aprovou o primeiro pedido de adoção conjunta de uma criança por um casal do mesmo sexo. Em relação ao reconhecimento da paternidade, no caso de casais igualitários, formalmente casados ou não, apenas um dos homens pode reconhecer a paternidade, mas não seu parceiro. A lei alemã só reconhece um pai, além da mãe biológica. Para os casais homoafetivos oficialmente casados modalidade de adoção conjunta é a única permitida. Já nas uniões não oficializadas, apenas um dos adultos do casal pode se tornar o pai legal de uma criança adotada, facultando-se ao outro o recurso de adotar a criança como enteada. Essa lei funciona também para casais heterossexuais formalmente casados ou não. Essa questão específica foi contestada recentemente, quando o Tribunal Constitucional Federal em Karlsruhe decidiu, em abril de 2024, que os pais biológicos devem sempre ter a oportunidade de manter e exercer a responsabilidade parental sobre seus filhos. Isso abre a possibilidade de reconhecimento de famílias multiparentais, em que haja dois pais e uma mãe. Em relação ao acesso a técnicas de reprodução assistida para casais de lésbicas, como inseminação artificial e fertilização in vitro, não há um direito legal específico, embora essas práticas também não sejam explicitamente proibidas. A Associação Médica Alemã é contra a legalização explícita e orienta seus membros a não realizarem tais procedimentos. No entanto, como essa diretriz não é juridicamente vinculativa, bancos de esperma e médicos podem atender clientes lésbicas, se desejarem. Isso torna mais difícil para casais de lésbicas na Alemanha terem filhos em comparação com alguns outros países, embora essa prática esteja se tornando cada vez mais comum. Pela legislação alemã vigente, a parceira da mulher que dá à luz em um casal de lésbicas não é automaticamente reconhecida como responsável legal na certidão de nascimento, devendo recorrer ao processo formal de adoção de enteado para obter o reconhecimento legal da maternidade. Essa exigência contrasta com o tratamento dispensado aos casais heterossexuais casados, nos quais o cônjuge não biológico é automaticamente registrado como responsável legal da criança. Um projeto de lei apresentado pelo partido Aliança 90/Os Verdes em junho de 2018, com o propósito de sanar essa assimetria jurídica, permanece pendente de deliberação no Bundestag. Em outubro de 2018, o Tribunal Federal de Justiça da Alemanha, em Karlsruhe, decidiu que, ao contrário dos casais heterossexuais, a esposa da mãe legal da criança não se torna automaticamente mãe, sendo necessária a adoção. O caso envolvia um casal de lésbicas da Saxônia que havia convertido sua parceria civil em casamento em 2017. Após o nascimento da criança por inseminação artificial, apenas a mãe biológica teve direito de registrá-la. O casal tentou corrigir o registro, mas teve o pedido negado e recorreu judicialmente, sem sucesso. Um tribunal distrital de Chemnitz inicialmente decidiu a favor do casal, mas o Tribunal Regional Superior de Dresden reverteu a decisão em abril de 2018. Após novo recurso, o Tribunal Federal de Justiça também se pronunciou contra o casal, que em sua decisão, citou o §1592 do Bürgerliches Gesetzbuch, Código Civil alemão, que estabelece que “o pai de uma criança é o homem que, no momento do nascimento, é casado com a mãe da criança”. O Ministério da Justiça Federal passou então a estudar reformas legais para garantir o reconhecimento automático da co-parentalidade para casais de lésbicas. Em maio de 2019, a Ministra Federal da Família, Idosos, Mulheres e Juventude, Franziska Giffey, recomendou que os professores adotassem formulários com linguagem neutra de gênero, substituindo os termos “mãe e pai” por “responsável 1 e responsável 2”.

Forças Armadas e Polícia Veja tambémː Orientação sexual e serviço militar Pessoas LGBTs podem servir abertamente nas Forças Armadas da Alemanha (Bundeswehr). Tal posicionamento coloca em prática não apenas a igualdade exigida pela Lei Fundamental da República Federal da Alemanha e pela Lei Geral de Tratamento Igualitário (AGG), mas também o compromisso assumido pelo Ministério Federal da Defesa em 2012 com a assinatura da Carta da Diversidade. A Bundeswehr mantinha uma política de “teto de vidro” que, na prática, impedia homossexuais de se tornarem oficiais até o ano 2000. O primeiro-tenente Winfried Stecher, rebaixado por ser homossexual, entrou com uma ação judicial contra o então Ministro da Defesa Rudolf Scharping. Scharping declarou que a homossexualidade “levanta sérias dúvidas quanto à aptidão e exclui o exercício de funções de liderança”. No entanto, antes que o caso fosse a julgamento, o Ministério Federal da Defesa reverteu a política. Embora o governo alemão não tenha apresentado uma explicação oficial, acredita-se amplamente que Scharping foi contrariado pelo então chanceler Gerhard Schröder e pelo vice-chanceler Joschka Fischer. Atualmente, de acordo com ordens militares gerais emitidas em 2000, a tolerância em relação a todas as orientações sexuais é considerada parte do dever dos militares. Relações e atos sexuais entre soldados fora do horário de serviço, independentemente da orientação sexual, são considerados “irrelevantes”, sem distinção de patente ou função. Já o assédio ou abuso de função é considerado infração, assim como a prática de atos sexuais durante o serviço ativo. Em setembro de 2020, o governo alemão emitiu um pedido formal de desculpas pela homofobia ocorrida no passado dentro das forças armadas. Em novembro de 2020, o gabinete aprovou uma legislação prevendo compensação a militares LGBTs por discriminação e assédio sofridos anteriormente. Em março de 2021, o projeto foi discutido no Bundestag, recebendo apoio da maioria, com pequenas alterações sugeridas. Em 20 de maio de 2021, o projeto foi aprovado pelo Parlamento. Em janeiro de 2021, a Alemanha passou a permitir que pessoas transgênero e intersexo servissem abertamente nas forças policiais, com a medida sendo implementada nos 19 departamentos de polícia do país. A mudança decorreu da reforma da Regulamentação de Serviço Policial 300 (Polizeidienstvorschrift 300 — PDV 300), cujo texto anterior, ao mencionar exclusivamente as categorias "homem" e "mulher", excluía implicitamente essas identidades do serviço policial. Quanto às Forças Armadas, a Alemanha já permitia que pessoas trans servissem abertamente em suas forças militares desde 2014, com a política de inclusão ainda em vigor.

Proteção contra discriminação Nos campos do emprego, bens e serviços, educação e serviços de saúde, a discriminação com base na orientação sexual ou identidade de gênero é ilegal em toda a Alemanha. Como signatária do Tratado de Amsterdã, a Alemanha foi obrigada a adequar sua legislação antidiscriminação nacional para incluir, entre outros critérios, a orientação sexual. No entanto, o país levou seis anos para fazê-lo, em razão de debates sobre o alcance das normas propostas. Algumas propostas foram contestadas por ultrapassarem as exigências do Tratado de Amsterdã, nomeadamente ao estender a proteção contra discriminação a todos os motivos também na oferta de bens e serviços. A versão final da lei, contudo, foi criticada por não atender integralmente a algumas disposições do tratado, sobretudo no que se refere às especificações sobre a rescisão de contratos empregatícios perante os tribunais do trabalho.

O Bundestag aprovou a Lei Geral de Igualdade de Tratamento (Allgemeines Gleichbehandlungsgesetz) em 29 de junho de 2006; o Bundesrat (Conselho Federal) ratificou-a sem deliberação em 7 de julho do mesmo ano. Em vigor desde 18 de agosto de 2006, a lei veda a discriminação com base na orientação sexual e na identidade de gênero no emprego, na educação, nos serviços de saúde e na oferta de bens e serviços. Algumas constituições estaduais também contemplam dispositivos antidiscriminação abrangendo orientação sexual e identidade de gênero, como as de Berlim (desde 1995), Brandemburgo (desde 1992), Bremen (desde 2001), Sarre (desde 2011) e Turíngia (desde 1993), além da Saxônia-Anhalt, no âmbito do setor público, desde 1997. O artigo 10.o, n.o 2, da Constituição de Berlim dispõe:

Ninguém pode ser prejudicado ou favorecido por causa do sexo, nascimento, raça, língua, origem nacional ou social, fé, opiniões religiosas ou políticas, ou orientação sexual.Discursos de ódio com base na orientação sexual e identidade de gênero são proibidos na Alemanha. A legislação alemã proíbe a incitação ao ódio com base na pertencimento a determinado grupo social ou étnico. Segundo o Ministério Federal do Interior, foram registrados 245 casos de ataques homofóbicos e transfóbicos no primeiro semestre de 2019, em comparação com 351 casos em todo o ano de 2018.

Emendas à Constituição Em 1994, embora uma maioria na Comissão Constitucional Conjunta do Bundestag e do Bundesrat tenha votado a favor da inclusão de uma proibição de discriminação com base na identidade sexual na Lei Fundamental da Alemanha (Grundgesetz), a maioria qualificada de dois terços necessária não foi alcançada. Em junho de 2018, os estados de Berlim, Brandemburgo, Bremen, Hamburgo, Renânia-Palatinado e Turíngia apresentaram um projeto de lei ao Bundesrat para alterar o artigo 3 da Lei Fundamental, incluindo as características “identidade sexual e de gênero”. Em julho, a proposta fracassou após o estado de Berlim (Berlim é uma cidade-estado, assim como Hamburgo e Bremem) solicitar sua rejeição, ao ficar claro que a maioria de dois terços não seria alcançada. Em maio de 2019, a Aliança 90/Os Verdes, o Partido Democrático Livre e A Esquerda (Die Linke) apresentaram uma iniciativa legislativa conjunta para alterar o artigo 3 da Lei Fundamental, proibindo a discriminação com base na “identidade sexual” (sexuelle Identität). Em novembro de 2019, a União Democrata Cristã declarou apoio à iniciativa.

Direitos de pessoas transgênero e intersexo Veja tambémː Diferença entre sexo e gênero e Gênero não binário Desde 1980, a legislação alemã — formalmente denominada Gesetz über die Änderung der Vornamen und die Feststellung der Geschlechtszugehörigkeit in besonderen Fällen (Lei sobre a Alteração de Prenomes e a Determinação de Gênero em Casos Especiais) — autorizava a alteração do sexo legal de pessoas transgênero após a realização de cirurgia de redesignação sexual e esterilização. Em janeiro de 2011, o Tribunal Constitucional Federal declarou ambos os requisitos inconstitucionais. Em maio de 2019, o Ministério da Justiça e o Ministério do Interior apresentaram um projeto de lei para reformar essa legislação. Ele foi criticado por grupos LGBTQIA+ por não adotar um modelo de autodeterminação e ainda exigir que pessoas trans recorressem aos tribunais para alterar o gênero legal. Além disso, previa a introdução de um “veto conjugal” e exigia um período de espera de três anos antes que o requerente pudesse tentar novamente após um veto do cônjuge ou decisão judicial negativa. Em 2019, a Sociedade Alemã para Transidentidade e Intersexualidade estimou que havia entre 210.000 e 500.000 pessoas transgênero e intersexo na Alemanha. Desde 2013, a legislação alemã permite que crianças nascidas com características sexuais atípicas tenham o gênero deixado em branco, em vez de serem classificadas como masculino (männlich) ou feminino (weiblich). O grupo ativista suíço Zwischengeschlecht, que defende os direitos e autonomia de pessoas intersexuais, apoiou a medida, afirmando que, se a anatomia de uma criança não se encaixa nas categorias tradicionais, não há motivo para impor esses rótulos. Em novembro de 2017, o Tribunal Constitucional Federal decidiu que a legislação de registro civil deve permitir um terceiro gênero, o que possibilitou que pessoas intersexo tivessem uma alternativa além de “masculino”, “feminino” ou em branco. Em 2018, o governo apresentou uma proposta, e o Bundestag aprovou a chamada Lei do Terceiro Gênero em dezembro daquele ano, entrando em vigor em 1o de janeiro de 2019. A opção “divers” (diverso) passou a estar disponível em documentos oficiais como certidões de nascimento, passaportes e carteiras de motorista. No entanto, pessoas intersexo precisam apresentar um laudo médico comprovando essa condição, o que foi criticado por grupos LGBTs. Além disso, o Ministério do Interior esclareceu que essa opção se aplica apenas a pessoas intersexo, não a pessoas trans. Em agosto de 2023, o Gabinete federal aprovovou o projeto da Lei de Autodeterminação de Gênero(Selbstbestimmungsgesetz), cuja proposta havia sido apresentada pelo governo alemão no ano anterior. Pelo texto da lei, qualquer pessoa adulta — seja transgênero, intersexo ou não binária — pode declarar a alteração do prenome e gênero mediante aviso prévio de três meses. Em abril de 2024, o parlamento da Alemanha aprovou a Lei de Autodeterminação de Gênero por 374 votos a 251. A lei entrou em vigor em 1o de novembro de 2024.

Acesso aos serviços de saúde O uso de bloqueadores da puberdade em jovens com disforia de gênero tem sido apoiado por diversas organizaçõesː

Terapia de conversão A terapia de conversão ou terapia de reorientação sexual tem um efeito negativo na vida de pessoas LGBTQIA+, podendo levar à baixa autoestima, depressão e ideação suicida. Ela é rejeitada por todas as organizações médicas na Alemanha e o país está ao lado de mais oito Estados-membros da União Europeia que já proíbem oficialmente essas práticas como França, Bélgica, Chipre, Malta, Portugal, Espanha e Grécia. Em 2008, o governo alemão declarou-se totalmente contrário a essa prática pseudocientífica. Em 2013, a Aliança 90/Os Verdes apresentou um projeto de lei ao Bundestag para proibir a terapia de conversão em menores, mas ele nunca foi votado. Em julho de 2018, foi lançada uma petição pedindo ao Ministério da Saúde que proibisse a prática, reunindo cerca de 60.000 assinaturas até meados de agosto daquele ano. Em fevereiro de 2019, o ministro da Saúde abertamente gay Jens Spahn afirmou que queria tornar ilegal a terapia de conversão tanto para menores quanto para adultos, classificando-a como “uma forma de agressão”, declarando ainda que pretendia trabalhar com a ministra da Justiça Katarina Barley para aprovar uma lei até o outono de 2019. Em abril de 2019, uma petição da organização internacional All Out com cerca de 110.000 assinaturas levou o ministro Spahn a formar uma comissão composta por políticos, cientistas, bem como pessoas vitimadas pela terapia de conversão e instituições internacionais para debater a proibição dessa prática. Os trabalhos resultaram em dois relatórios científicos apresentados em junho em uma coletiva de imprensa, que condenavam a terapia e recomendavam sua proibição legal. Em novembro, Spahn apresentou um projeto de lei para proibir o uso da terapia em menores de idade e para punição em casos de coerção, ameaça, engano ou ausência de livre vontade em qualquer idade, abrangendo inclusive sessões psicoterapêuticas e pastorais. As penas previstas incluíam até um ano de prisão para quem praticasse ilegalmente e multa de até €30.000 para quem oferecesse, promovesse ou encaminhasse menores à prática. O Gabinete federal aprovou o projeto em dezembro de 2019, e a lei foi referendada pelo Bundestag em 7 de maio de 2020 com apoio de todos os partidos, exceto a AfD. Em paralelo à iniciativa federal, diversos estados alemães movimentaram-se para proibir a terapia de conversão. Em abril de 2019, Hesse, Berlim, Bremen, Sarre e Schleswig-Holstein apresentaram uma moção conjunta ao Bundesrat pela proibição da terapia de reorientação sexual, contando ainda com o apoio de Saxônia, Saxônia-Anhalt e Turíngia, além da Baviera, que demonstrou apoio condicionado a possíveis modificações. A votação da moção, no entanto, foi posteriormente adiada. Outra proposta para proibir a terapia de conversão em menores, juntamente com medidas de conscientização e apoio às vítimas, foi apresentada pelo grupo dos parlamentares do partido verde no Bundestag em março de 2019.

Doação de sangue e medula óssea Na Alemanha, como em muitos outros países, homens que fazem sexo com homens (HSH) anteriormente não tinham permissão para doar sangue, regra que se estendia também a detentos, homens e mulheres profissionais do sexo e heterossexuais com comportamento sexual de risco. O Tribunal de Justiça da União Europeia havia estabelecido em 2015 que proibições generalizadas seriam inadmissíveis quando outros meios — como novas técnicas de detecção do HIV ou questionários — pudessem garantir a segurança dos receptores, invocando os princípios da proporcionalidade e da não discriminação por orientação sexual. Com base nisso, a Câmara Federal de Médicos revisou suas diretrizes e substituiu a proibição permanente por um período de inaptidão de um ano após o fim do "comportamento sexual de risco", aplicável a homens gays, heterossexuais com contatos sexuais frequentes, homem e mulheres profissionais do sexo. A medida entrou em vigor no verão de 2017. A alteração das diretrizes foi precedida por uma mobilização política significativa. Durante a 89a Conferência dos Ministros da Saúde, todos os 16 estados alemães votaram unanimemente pela revisão dos critérios de exclusão para doação de sangue, movimento liderado pela ministra da Saúde do Sarre, Monika Bachmann, do partido CDU de Angela Merkel. O então ministro federal da Saúde, Hermann Gröhe, também se declarou favorável ao fim da proibição absoluta, sinalizando preferência por um período de inaptidão similar ao adotado no Reino Unido. Organizações como a Deutsche Aidshilfe e o Lesben- und Schwulenverband (LSVD), maior organização LGBTQIA+ da Alemanha, criticaram o prazo de um ano como cientificamente desnecessário — uma infecção por HIV pode ser descartada com segurança seis semanas após a última relação de risco — e discriminatório na prática, uma vez que não considera o menor risco associado ao sexo protegido e parte da premissa irreal de que homens gays saudáveis viveriam um ano de celibato para poder doar sangue. Desde setembro de 2021, homens gays e bissexuais podem doar sangue se viverem em um relacionamento monogâmico permanente. O contato sexual entre homens fora desses relacionamentos levará à exclusão por quatro meses. A partir de 1o de abril de 2023, o Ministério da Saúde alemão adotou uma nova política de avaliação de risco individual, descartando as políticas anteriores de doação de sangue discriminatórias para homens gays e bissexuais em toda a Alemanha. A doação de medula óssea é permitida desde dezembro de 2014.

Políticos LGBTQIA+ assumidos publicamente A Alemanha conta com diversos políticos abertamente pertencentes à comunidade LGBT. Entre eles estão o ex-prefeito de Berlim Klaus Wowereit conhecido pela frase com que se assumiu publicamente — "Sou gay – e isso é uma coisa boa!" —, e Johannes Kahrs, Michael Roth, Takis Mehmet Ali, Johannes Arlt, Karl-Heinz Brunner, Lars Castellucci, Falko Droßmann, Timon Gremmels, Carlos Kasper, Kevin Kühnert, Dorothee Martin, Matthias Miersch, Jan Plobner e Helga Schuchardt, todos do SPD. Pela Aliança 90/Os Verdes, destacam-se Volker Beck, Nyke Slawik e Tessa Ganserer, que foram as primeiras mulheres trans eleitas parlamentares na Alemanha. Andreas Audretsch, Dirk Behrendt, Birgitt Bender, Vasili Franco, Kai Gehring, Bruno Hönel, Anne Klein, Sven Lehmann, Jutta Oesterle-Schwerin, Josefine Paul, Ulle Schauws, Gerhard Schick, Marlene Schönberger, Emilia Fester, Anja Hajduk, Sibyll-Anka Klotz, Katja Meier, Herbert Rusche, Daniel Wesener e Wolfgang Wetzel. Do partido A Esquerda, são abertamente LGBT Karin Binder, Achim Kessler, Matthias Höhn, Sabine Jünger, Klaus Lederer, Carsten Schatz e Harald Petzold. Pela CDU, figuram Jens Spahn, ex-ministro federal da Saúde no quarto gabinete Merkel, Ole von Beust, Jan Redmann, Uwe Schummer, Hendrik Streeck, Sepp Müller e Stefan Kaufmann. A CSU é representada por Bernd Fabritius e Wolfgang Stefinger. Pelo FDP, estão Michael Kauch, Jens Brandenburg, Jörg van Essen, Heiner Garg, Konstantin Kuhle, Thomas Sattelberger e Guido Westerwelle, que exerceu o cargo de ministro das Relações Exteriores entre 2009 e 2013 e de vice-chanceler entre 2009 e 2011. Pela AfD, são abertamente LGBTs Alice Weidel, Kay Gottschalk e Tobias Ebenberger. Além disso, o ex-prefeito de Hamburgo Ole von Beust (CDU) não desmentiu quando seu pai o assumiu publicamente, tratando o assunto como privado; após deixar o cargo, passou a falar abertamente sobre sua homossexualidade. Em julho de 2007, Karin Wolff, ministra da Educação de Hesse, assumiu-se lésbica. Em dezembro de 2013, Barbara Hendricks (SPD), ministra federal do Meio Ambiente no terceiro gabinete Merkel, também se assumiu lésbica. Em 2012, Michael Ebling (SPD) tornou-se prefeito de Mainz. Em 2013 e 2015, Sven Gerich (SPD) e Thomas Kufen (CDU) tornaram-se, respectivamente, os prefeitos assumidos publicamente gays de Wiesbaden e Essen.

Posições dos partidos políticos

O Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), A Esquerda (Die Linke), Aliança 90/Os Verdes e o liberal Partido Democrático Livre apoiam os direitos LGBTQIA+, incluindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Os partidos conservadores União Democrata Cristã e União Social Cristã (CDU/CSU) passaram a apoiar o casamento igualitário a partir de 2020 e 2023, respectivamente. Já o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) se opõe aos direitos LGBTQIA+ e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, embora seja liderado por Alice Weidel, que apoia parcerias registradas e mantém ela própria uma união desse tipo com uma mulher.

Comissário para questões LGBTQIA+ Em janeiro de 2022, foi criado o cargo de Comissário para a Aceitação da Diversidade Sexual e de Gênero no Ministério Federal da Família, Idosos, Mulheres e Juventude. O primeiro nomeado para o cargo foi o secretário de Estado parlamentar (Parlamentarische Staatssekretär) Sven Lehmann.

Movimento pelos direitos LGBTQIA+ na Alemanha Veja tambémː Primeiro movimento homossexual

A primeira organização de direitos homossexuais em qualquer lugar do mundo foi o Comitê Científico-Humanitário, fundado em 1897 em Berlim por Magnus Hirschfeld para fazer campanha pela revogação do Parágrafo 175. A primeira revista gay do mundo, Der Eigene, começou a ser publicada em 1896. A revista continuou sendo publicada, com contribuições de Benedict Friedlaender, Hanns Heinz Ewers, Erich Mühsam e outros, até 1932. Durante as décadas de 1920 e 1930, surgiram duas grandes organizações de massa, o Bund für Menschenrecht e o Deutscher Freundschaftsverband; muitos outros grupos de interesse específico se seguiram, dezenas de revistas LGBT foram publicadas em grande número, entre elas as primeiras revistas lésbicas do mundo, como Die Freundin, Garçonne e Die BIF, além da primeira revista transgênero, Das 3. Geschlecht. Centenas de bares e clubes gays criaram um cenário LGBTQIA+ vibrante em Berlim.

Com a ascensão do Partido Nazista ao poder, as autoridades fecharam os bares, censuraram e proibiram publicações gays e forçaram todas as organizações do movimento a se dissolverem. Durante a era nazista, pessoas gays, lésbicas e trans foram perseguidas pelas autoridades e frequentemente presas em campos de concentração. Logo após a Segunda Guerra Mundial, alguns ativistas LGBTQIA+ tentaram estabelecer um novo movimento, lutando contra a continuidade das leis anti-homossexuais nazistas. A primeira publicação homossexual, Amicus-Briefbund, foi fundada em 1948, seguida por outras revistas no início dos anos 1950. Ativistas em Berlim, Hamburgo e Frankfurt fundaram novas organizações para dar continuidade ao forte movimento da década de 1920. Disputas internas e o clima repressivo da jovem República Federal, porém, impediram um desenvolvimento tão bem-sucedido quanto o da República de Weimar, e, no final da década de 1950, o movimento já havia fracassado e chegado ao fim. Somente com a liberalização do clima social e político na segunda metade da década de 1960 é que organizações homófilas fizeram um modesto recomeço, mas logo foram marginalizadas pelo surgimento dos movimentos modernos gay e lésbico.

A Ação Homossexual de Berlim Ocidental (Homosexuelle Aktion Westberlin, HAW) foi fundada em 15 de agosto de 1971. O grupo se formou como resultado do filme de Rosa von Praunheim, Não É o Homossexual Que É Perverso, Mas a Situação Em Que Ele Vive. A partir de 1973, o grupo organizou encontros anuais com vários outros grupos gays, incluindo a Homosexuelle Aktion Göttingen, fundada em 1972 na cidade de Göttingen, e o Grupo de Mulheres Homossexuais de Münster (Homosexuelle Frauengruppe Münster). O primeiro protesto gay e lésbico foi organizado em Münster em 29 de abril de 1972. Os grupos fizeram campanha pela revogação do Parágrafo 175 e pela aceitação social das pessoas LGBTs. Em 1975, vários membros da HAW se separaram do grupo para formar sua própria organização, o Lesbisches Aktionszentrum Westberlin (Centro de Ação Lésbica de Berlim Ocidental). A HAW começou a perder influência a partir do final da década de 1970, fundando o clube gay SchwuZ (SchwulenZentrum) e eventualmente encerrando suas atividades no final dos anos 1990. A Bundesverband Homosexualität (Associação Federal de Homossexualidade) foi estabelecida em Colônia em 1986 e dissolvida em 1997.

Em 1990, a Federação Lésbica e Gay na Alemanha (LSVD, Lesben- und Schwulenverband in Deutschland) foi fundada em Berlim. Hoje, a LSVD é a maior organização de direitos LGBTQIA+ da Alemanha. Vários outros grupos de defesa foram formados, incluindo o Lesbenring em 1982, a Associação de Jornalistas Lésbicas e Gays (Bund Lesbischer und Schwuler JournalistInnen) em Colônia em 1997, o Grupo de Trabalho Ecumênico Homossexuais e Igreja (Ökumenische Arbeitsgruppe Homosexuelle und Kirche) em 1977, e a Associação de Policiais Lésbicas e Gays (Verband lesbischer und schwuler Polizeibediensteter), entre muitos outros. O Bundesverband Trans e a Intersexuelle Menschen e.V. estão entre vários grupos que fazem campanha pelos direitos de pessoas transgênero e intersexo.

A primeira Parada do Orgulho LGBTQIA+ de Berlim, conhecida como Christopher Street Day (CSD) ocorreu em 1979, com 400 participantes mascarados. A participação aumentou posteriormente, com 15.000 participantes em 1990 e chegando a 100.000 no final dos anos 1990. Em 2005, o evento atraiu cerca de 400.000 pessoas. Atualmente, a Parada LGBTQIA+ de Berlim está entre os maiores eventos da cidade. Em 2019, atraiu um público de cerca de um milhão de pessoas.

Fora de Berlim, desfiles do orgulho também são realizados em várias cidades, incluindo Bremen e Colônia, que realizaram seus primeiros eventos em 1979, além de Hamburgo (conhecido como Hamburg Pride) e Munique, cujos primeiros eventos ocorreram em 1980. Freiburg na Brisgóvia organizou seu primeiro evento em 1985, seguido por Frankfurt em 1993, Dresden em 1994, Dortmund em 1996, Quiel em 1998 e Estugarda em 1999. Eventos também são realizados em Bona, Leipzig, Karlsruhe, Hanôver, Nuremberg, Darmstadt, Bielefeld, Düsseldorf, Essen, Duisburgo, Heidelberg, Wuppertal, Mannheim, Saarbrücken e Lübeck, entre muitas outras cidades.

Dados demográficos Um estudo de maio de 2019 revelou que 6,9% da população alemã se identificava como LGBTQIA+. O estudo também mostrou que 10,6% da população da cidade de Colônia, com idades entre 18 e 75 anos, se descrevia como lésbica, gay, bissexual, transgênero, intersexo ou queer. Isso correspondia a mais de 87.000 pessoas na cidade. Em 2019, a Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia realizou uma pesquisa com pessoas LGBT, que constatou que 18% se identificavam como protestantes, 17% como católicos e 55% como não religiosos. Uma pesquisa de 2023 apontou que a maioria dos alemães LGBT religiosos se identificava como protestante.

Opinião pública

Uma pesquisa do Pew Research Center de 2013 indicou que 87% dos alemães acreditavam que a homossexualidade deveria ser aceita pela sociedade, sendo o segundo maior índice entre os 39 países pesquisados, atrás da Espanha, com 88%. De acordo com resultados de 2013 de uma pesquisa da Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia, 46% de 20.000 pessoas LGBT na Alemanha afirmaram ter sofrido discriminação por causa de sua orientação sexual e identidade de gênero no ano anterior (a média da União Europeia foi de 47%). Dois terços dos entrevistados disseram esconder sua orientação sexual na escola e na vida pública, e um quinto relatou discriminação no trabalho. Em maio de 2015, o PlanetRomeo, uma rede social LGBT, publicou seu primeiro Índice de Felicidade Gay (GHI). Homens gays de mais de 120 países foram questionados sobre como se sentiam em relação à visão da sociedade sobre a homossexualidade, como experimentavam o tratamento de outras pessoas e quão satisfeitos estavam com suas vidas. A Alemanha ficou em 14o lugar, com uma pontuação de 68 no GHI. Uma pesquisa de 2017 mostrou que 83% dos alemães apoiavam o casamento entre pessoas do mesmo sexo, enquanto 16% eram contra. Para comparação, o Eurobarômetro de 2015 apontou que 66% dos alemães acreditavam que o casamento entre pessoas do mesmo sexo deveria ser permitido em toda a Europa, enquanto 29% eram contra. Já em 2019 o Eurobarômetro mostrou que 88% dos alemães acreditavam que pessoas gays e bissexuais deveriam desfrutar dos mesmos direitos que pessoas heterossexuais, e 84% apoiavam o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em 2023, essa mesma pesquisa constatou que 84% dos alemães achavam que o casamento entre pessoas do mesmo sexo deveria ser permitido em toda a Europa, e 84% concordavam não haver nada de errado em uma relação sexual entre duas pessoas do mesmo sexo.

Notas

Referências