Entre ladeiras, igrejas e telhados coloniais, Ouro Preto esconde uma segunda paisagem sob os pés. Uma publicação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registra 2.204 minas espalhadas por bairros e morros. Mapas municipais transformam o risco geológico em informação prática, usada na análise de novas obras e na emissão de documentos.

O que existe sob Ouro Preto?

🏛️ Fim do século 17: Ouro Preto se forma durante a corrida do ouro que marcou a região.

🌿 1938: O conjunto arquitetônico e urbanístico recebe tombamento federal pelo órgão antecessor do Iphan.

🚀 2023: O plano municipal identifica 184 setores e classifica os riscos entre médio e muito alto.

O subsolo guarda milhares de marcas da mineração colonial. Uma publicação do Iphan, lançada em 2008, registra 2.204 minas espalhadas por bairros e morros do município. O documento associa essa herança a uma cidade construída sobre relevo acidentado e marcada por forte expansão urbana no século 20.

A mesma obra relata galerias subterrâneas abandonadas depois do declínio da produção aurífera. Muitas minas ficam em área urbana, inclusive sob construções históricas protegidas. Em 1980, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura reconheceu a cidade como Patrimônio Mundial.

Por que as antigas minas viram risco urbano?

Ouro Preto chama atenção pelas ruas de pedra e arquitetura colonial // Créditos: depositphotos.com / lspencer

O risco não decorre apenas da presença de uma galeria antiga. Ele aumenta quando escavações, encostas íngremes, terrenos frágeis e ocupação urbana se encontram em áreas sujeitas a movimentação. O estudo publicado pelo Iphan relaciona desmoronamentos de galerias a ocorrências de erosão e danos em construções próximas dessas estruturas subterrâneas.

Em 2023, o Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR) identificou 184 setores de risco, classificados entre médio e muito alto. O trabalho começou em 2020 e reuniu a Universidade Federal de Viçosa (UFV), a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e órgãos de defesa civil. O levantamento inclui deslizamentos, quedas de blocos, inundações e enxurradas, sem transformar toda mina antiga em ameaça automática.

Como o mapa de risco interfere numa obra?

Ele pode entrar diretamente na análise administrativa de um imóvel. Uma portaria municipal de 2023 autoriza o uso do PMRR na aprovação de projetos, emissão de alvarás e de habite-se. O texto condiciona essa aplicação à situação do imóvel, às avaliações de segurança disponíveis e às intervenções previstas no próprio projeto.

A regra alcança imóveis consolidados até 2023, desde que não exista impedimento definido pela Defesa Civil Municipal. A Prefeitura também disponibiliza mapas em PDF e setorização GIS, permitindo localizar espacialmente os setores avaliados no PMRR. Projetos podem incorporar intervenções necessárias para ocupação segura, segundo a Portaria nº 12/2023, quando a situação exigir medidas adicionais.

Por que patrimônio e risco não são a mesma regra?

Camada de controle

O que considera

Risco geológico

Condições do terreno e ameaças mapeadas pelo PMRR.

Patrimônio

Preservação da paisagem urbana e escala das novas edificações.

São controles diferentes, embora possam atingir o mesmo imóvel. A Unesco afirma que o crescimento controlado e limites na escala de novas construções ajudam a preservar a paisagem histórica. Essa proteção patrimonial se soma às análises geotécnicas feitas pelo município, criando camadas diferentes de controle sobre intervenções no espaço urbano.

Por isso, não foi possível confirmar a afirmação de que o mapa municipal proíba genericamente prédios com mais de dois andares. O material oficial consultado mostra critérios de risco, patrimônio e ocupação, mas não apresenta essa regra geral atribuída ao mapa. Na área protegida, intervenções também precisam considerar normas de preservação voltadas à forma, à escala e à paisagem do conjunto histórico.

O subsolo também virou atração em Ouro Preto

Parte dessa história subterrânea pode ser vista em uma visita organizada. A Mina do Bijoca, no bairro Antônio Dias, abriu ao público em 2020 e oferece acesso a três níveis. A Secretaria Municipal de Cultura e Turismo informa corredores com altura média de dois metros, largura aproximada de 1,5 metro e artefatos antigos.

O percurso soma cerca de 200 metros, segundo o portal turístico municipal. As galerias foram redescobertas no quintal de um terreno comprado em 1962 por um morador conhecido como Bijoca. A atração aproxima a memória da mineração da paisagem cotidiana e permite enxergar uma parte concreta da cidade escondida sob ruas e imóveis históricos.

Ouro Preto pede outro olhar

O patrimônio de Minas Gerais não termina nas fachadas barrocas que dominam as ladeiras e moldam a imagem mais conhecida do município. Sob parte da cidade, antigas escavações ajudam a explicar desafios atuais de ocupação, conservação e planejamento urbano. O mapa de risco transforma essa herança em informação prática, conectando memória, segurança e decisões sobre imóveis na cidade contemporânea. Na próxima visita, eu recomendo olhar também para as encostas e conhecer uma mina aberta ao público, porque o subsolo completa essa experiência.

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